Enchiam-lhe a mala de pedras, escondiam as suas coisas, colavam-lhe papéis nas costas com frases que faziam dela o centro da chacota, tais como: "Não tenho cuecas", ou "Sou burra", maquinando sempre uma partida diferente.
Em determinada altura, Angélica ainda tentou agradar vestindo-se como eles, falar como eles e até esforçar-se para gostar das mesmas coisas que os seus colegas gostavam, para tentar ser aceite pelo grupo. Apesar do seu esforço, nada resultou...
Começou a aproximar-se de um colega seu. O rapaz costumava estar sozinho à espera da aula seguinte, ou então ficava à espera que o fossem buscar ao liceu no fim das aulas; esse rapaz chamava-se Ricardo e era invisual.
No intervalo das aulas, passaram a conversar muito, apesar dos colegas não deixarem que ambos se integrassem no grupo. Ao Ricardo deixavam em paz, ignorando-o, mas continuavam sempre a massacrar Angélica com partidas. ...
Ao contactar com aquele rapaz, Angélica percebeu que, tal como ele, ela também sabia ver com o coração e que os olhos não tinham que ser o principal órgão da visão. O coração podia ver muito mais longe do que os olhos carnais.
“O maior cego será sempre o que não quer ver”. O coração pode ver coisas que os olhos físicos não conseguem.
Várias vezes, no seu quarto, Angélica fechava os seus olhos físicos e com os olhos do coração sentia cada parte do seu corpo, continuando a viajar para sítios longínquos, e a ver com o seu coração as necessidades das populações e o seu sofrimento. ...
